uma carta aberta a ti
Uma carta aberta a ti… porque sempre fui muito melhor com a
escrita do que com a fala, porque te quis dizer tanta coisa e não fui capaz,
porque tive medo e tenho medo. Só espero que não seja tarde.
Os meus olhos encheram-se de lágrimas, os meus lábios tremeram, o meu corpo
ficou imóvel... quando vi a foto do teu bilhete de avião. O meu coração começou a
acelerar. Finalmente. Felizmente. A notícia que eu esperei quase um ano para
ter. E eu sabia o quão importante era para ti. Eu sabia. E estava tão feliz. Quando
começo a chorar sem conseguir parar. Quando fico imóvel mais tempo do que o que
era suposto. Quando sinto uma dor no coração, um aperto tão grande. Que
confusão. E o meu pensamento viajou para um ano atrás. E revi-me no meu quarto,
à noite, a chorar com saudades. E voltei a sentir aquele vazio, o da despedida.
Como se fosse abandono. Não o é, de todo. Mas o sentimento é idêntico ou até
mesmo pior. Porque é mais frustrante ainda saber que não foi escolha. Foi a
vida. A vida que assim o quis. Mas eu queria tudo de maneira diferente. E não
queria voltar a sentir isso. Que medo. O desespero de não saber como reagir. O
medo de adormecer e sonhar com a nossa despedida. O medo de me sentir tão
perdida e sozinha outra vez. Mas. Porquê? Como? Este maldito medo estava a
apoderar-se da felicidade que eu senti quando vi a foto do teu bilhete de avião.
Não. Por favor. Não era nada disto que eu queria. Mas era mais forte que eu.
Porque desta vez eu tinha todas as certezas que não tive há um ano atrás. Eu
tinha a certeza do que sentíamos, eu tinha a certeza de que no momento em que
os nossos olhares se cruzassem eu não ia conseguir olhar para o lado. Eu tinha
a certeza que assim que estivesse nos teus braços que não ia querer mais sair.
Mas eu também sabia que ia chegar o dia onde não ia ter os teus braços para me
deitar. Que não te ia ter deitado no meu peito. Que ia olhar para o lado, para
a frente, para trás e que só iam lá estar as memórias. Mais uma vez, só as
memórias. E deixei-me consumir por esse mesmo medo. Deixei que ele se
apoderasse de mim. Que criasse barreiras, muros, defesas. E fez-me recuar.
Fez-me ficar no mesmo lugar durante tempo demais. Fez-me lutar contra à minha
vontade e não te beijar logo ali na estação no momento em que te vi. Porque o meu coração quase que me saltou do
peito, as minhas pernas tremiam. Mas eu. Eu não consegui fazer nada do que
queria. Aquele abraço. O nosso. Que começou a afastar o maldito medo. Que lutou
ao lado do que eu estava a sentir, mas que não foi suficiente.
“Fica lá em casa”, quantas vezes não disse esta frase na minha cabeça, mas não
fui capaz de te a dizer ti. Porquê? Medo. O maldito medo. Porque sabia que te
ias embora. E imaginar-te a ires embora era doloroso demais. Não conseguia
lidar com isso. Chorei. Chorei numa das primeiras noites porque me senti a
miúda mais parva de sempre. Porque estava a fazer tudo mas ao contrário. Porque
não era disto que eu queria. Porque te queria ali comigo, naquela noite, ao pé
de mim, na minha cama. Porque queria adormecer nos teus braços. Porque te
queria sentir. Mas não conseguia. Não conseguia reagir. Não conseguia agir. E
ficava a esperança. A esperança de que, mais uma vez, tu desses o primeiro
passo. Que tu, sabendo ou não, me lesses nas entrelinhas e soubesses o quanto
eu te queria comigo. A esperança de que tu, sabendo ou não, destruísses as
barreiras que se criaram à minha volta. Que, sabendo ou não, me deixasses sem
defesas. E, sabendo ou não, com querer ou sem querer, tu conseguiste. Quebras-te
todas as defesas que o meu coração tentou impor, e fizeste o que eu queria
desde o primeiro segundo. Nós. Voltaste a ser nós. Voltámos a ser nós. Fomos
nós. Desde os nossos momentos entre quatro paredes, ao eu a adormecer a
sentir-me a mais sortuda por estares ao meu lado a jogar playstation, pelo
simples facto de estares ao meu lado. Por poder adormecer no teu peito. Pelas
nossas discussões tão nossas. Pelas tuas implicâncias tão tuas e tão minhas. O
meu coração saltava, o meu corpo tremia. E eu simplesmente me sentia a miúda
mais sortuda do mundo. A mais parva outra vez, mas desta vez por me sentir tão
bem. Mas.. Este maldito mas.. o medo teimou em voltar vezes sem conta. Tantas
vezes. Quando adormecia com a cabeça no teu peito e me lembrava de que não ia ser
sempre assim. Quando acordava de manhã e te via sair e pensava que ia haver uma
manhã em que não ias voltar. Quando te sentia e sabia que não o ia poder fazer
sempre que quisesse. Quando me senti protegida, mas sabia que me ia voltar a
sentir perdida. Quando te sentia frágil, vulnerável e me doía o coração de
pensar que não ia poder lá estar para te dar carinho sempre que isso voltasse a
acontecer. Este maldito medo. Que aparecia por detrás de cada sorriso, cada
gargalhada, cada momento nosso. Tão nosso. Tão bom. Este maldito medo que me
deixou presa tantas vezes. Acorrentada a ele. E naquela última manhã, quando te
vi sair pela porta do meu quarto. Eu senti-me, outra vez, aquela miúda perdida.
Frustrada. Com vontade de que tudo fosse diferente. Frustrada por ter de ser
assim. E ainda mais frustrada e zangada comigo mesma por ter deixado que o medo
me dominasse. Por sentir que não aproveitei a mil por cento todos os segundos
que tinha contigo. Por sentir que, talvez, te possa ter deixado triste em algum
momento. Por sentir que, talvez, te possa ter deixado triste por esperares
outra atitude de mim. Por sentir, simplesmente, que te podia ter deixado
triste. E esse sentimento destruiu me por dentro. Desfez-me aos pedaços. Que
parva. Que estúpida. Que burra. Que tudo. Porque queria ter aproveitado todos
os segundos e não tenho a certeza de que o fiz. Mas ao mesmo tempo. Não te
podia exigir tempo que fosse do teu tempo. Porque não era capaz de te pedir
mais tempo para mim. Porque queria que aproveitasses todos os segundos que
tinhas para matares saudades de toda a gente. Porque queria que quando fosses
embora fosses de coração cheio. Mas. Tive tanta vontade de que o teu tempo me
pertencesse a cem por cento. Mas não podia ser egoísta. Não queria, não tinha
esse direito. Não tenho. E fiquei ali, no meu quarto, a chorar de coração nas
mãos. E adormeci lavada em lágrimas, pois por muito cansada que estivesses as
lágrimas eram infinitas. Quando acordei com o som da campainha. Quando te vi
pela televisão da campainha, o meu coração parou. Obrigada. Quis tanto
agradecer-te e não soube como. As palavras não saiam. Bolas, porque é que
consigo expressar-me tão bem pela escrita, mas não consigo desbobinar nada em
voz alta? Que nervos. E aquelas horas, contigo deitado no meu peito, foram das
melhores de sempre. Obrigada. Obrigada por teres voltado. Obrigada por teres
percebido, sentido que era disso que eu estava a precisar. Obrigada. E custou
tanto ver-te a sair por esta porta outra vez. Doeu tanto. Porque eu sabia que
desta era de vez. De vez, outra vez por tempo indeterminável. Mas…Volta. Por
favor. Volta. Nunca mais deixo que o medo se apodere de mim. Porque não há nada
melhor do que os nossos momentos. Porque te quero feliz. Sempre. Porque, eu
também vou procurar pela felicidade seja onde for. Porque seremos felizes cada
um à sua maneira. Porque estaremos sempre presentes na vida um do outro seja de que maneira for. Eu sei. Até mesmo se os caminhos forem totalmente opostos. Mas nunca, nunca te esqueças de voltar. Mesmo que seja para
um só abraço. Um só carinho. Um só segundo. Volta. Sem promessas. Sem
compromissos. Sem esperanças. Sem. Mas volta. Pateta.

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