A Dinamarquesa com M grande!*

Acho que percebi, hoje, depois de ter visto o filme, o porquê de ter adiado. Sim, adiei ver este filme... Quando saiu nos cinemas lembro-me de dizer a toda a gente: "Tenho de ir ver esse filme ao cinema, tenho! Quero!" Mas sem nunca marcar um dia, pensar se quer nisso. Só ficava a ideia, convicta sem dúvida, mas apenas uma ideia. Depois o tempo foi passando, e o filme deixou de estar em cena.. "Bolas, tenho de ver na net. Tenho de procurar nos sites de filmes, tenho. tenho.... tenho..." E mais uma vez, ficou esta vontade convicta, enorme e poderosa mas nunca passou disto. Lembro-me de saber que estava a dar na televisão: "Depois vejo. Meto para trás e vejo." E mais umas quantas vezes eu não cheguei se quer a procurar o canal.. E só hoje, depois de finalmente ver o filme é que percebo que foi um adiamento inconsciente, mas de propósito.
Que filme! Que história! Que vida! Que MulhereS!
Eu já sabia que o filme ia mexer imenso comigo. Sabia que não ia conseguir ficar indiferente. E não fiquei.
Dei por mim a por me na pele da Lili e da Greda várias vezes durante o filme. Chorei quando mais ninguém chorou. Arrepiei-me. Tremi. Senti um vazio enorme.
Como é que alguém pode não aceitar o que a Lili viveu? Doença mental? Esquizofrenia? Homossexualidade? Sendo que na altura, ainda mais do nos dias de hoje, ser-se homossexual era uma doença. Tratamentos, químicos, internamentos! Quantas mais pessoas passaram por isto que ela passou? Já não basta não estar bem dentro do corpo em que se nasceu. Sentirem-se presas/os dentro de um corpo. Não há como escapar a isso. Claro a não ser com a morte. E no entanto, foi a Lili que lhe deu forças para continuar em vida.
Sinto que este desabafo está confuso como tudo, mas é porque a minha cabeça está a mil.
Como é que alguém não consegue perceber o sofrimento que vai dentro de pessoas como a Lili? Que coragem! Que Mulher de M grande! Eu já me sinto claustrofóbica em sítios muito apertados, em lojas enormes onde eu não consiga ver a porta da saída. Quando fico presa a algum lado, ou até quando não consigo desatar os atacadores dos ténis à primeira! Quanto mais se estivesse dentro de um corpo que não me corresponde!!!! Que sufoco. Que desespero! Que angustia! Só de me imaginar a acordar todos os dias, e não me sentir bem no meu corpo. Querer sair dele e saber que não posso, que não há solução. E que tamanha confusão, tanto médico a querer fazer dela maluca...
Que pontada no coração... Quantas mais pessoas não passaram por isso? Sozinhas! Na escuridão de uma vida inteira, infelizes.
Que desespero ainda maior, saber que isto aconteceu com a Lili há 100 anos atrás e que apesar de falarmos em evolução da humanidade, eu sentir que não evoluímos em nada. Porque ainda se olha de lado para um transexual, porque ainda se olha de lado para um travesti, porque ainda se olha de lado para um homossexual! Evolução? De tudo menos da mentalidade!! Que triste...
Mas depois, existem pessoas como a Greda! Que foi a luz ao fundo do túnel. Que foi o que me fez respirar e o que me emocionou ainda mais durante o filme todo. O amor incondicional que ela sentia pela pessoa com quem tinha casado, não a deixou desistir de a ajudar! Pode ter tido momentos de dúvida, de incerteza. Pode ter ficado de coração partido, sem rumo. Mas nunca meteu em causa a Lili enquanto pessoa, não a desrespeitou. Que Mulher! Tão humana! E é desta humanidade que nós precisamos, cada vez mais, com mais urgência hoje em dia! Precisamos de pessoas humanas! Capazes de perceber e aceitar as diferenças, as divergências . Mesmo que não concorde na totalidade, mesmo que tenha dúvidas, é preciso pessoas com humanidade, capazes de aceitar!
Aceitar que nada é mais valioso que o ser interior de cada um! Nada é mais valioso que a felicidade de cada pessoa! Nada é mais valioso que o amor puro! Seja ele entre quem for.
Porque é uma história que me deixou de coração nas mãos.
E a arte.. A arte que tanto me diz, no meio desta história teve um papel tão importante! Porque é um refugio silencioso. Onde existe todo um infinito de escolhas, onde podemos misturar a realidade com o imaginário. E onde ambos se podem confundir tão facilmente. O desenho, a pintura! Que tanto me diz e que é tanto de mim. Acredito que me fez sentir e perceber esta história de uma maneira mais
pessoal.

Por mais pessoas humanas! Que é disso que o nosso mundo precisa!
A todas / todos as Lilis, a todas / todos as Gredas <3

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