#METOO, Não te cales, eu não me calei!
Olá,
Hoje venho-vos contar uma história bastante pessoal, e também mais séria... que infelizmente, abrange ainda muita gente, principalmente mulheres..Não me é fácil ainda hoje falar disto..porque foi uma situação que me deixou bastante assustada na altura, mas que felizmente consegui ter forças para fazer o que eu sempre disse que faria: defender-me, e denunciar!
Estou praticamente a conta-lo em primeira mão..porque só dois ou três amigos meus é que souberam disto na altura...nem aos meus país eu contei..eles descobriram por causa de uma carta da polícia com o relatório, que chegou lá a casa,mas mesmo assim não lhes quis contar pormenores....
Aos meus amigos e familiares...desculpem se estiverem a ler isto, e por saberem disto assim.. mas sabem que sempre me dei melhor com a escrita do que com a fala...e sempre guardei as coisas para mim....não foi por mal.
Hoje, decidi partilhar esta história aqui no meu Blossom, depois de ter lido uma crónica no blogue das Capazes. Que mais uma vez me deixou bastante preocupada e desiludida com a maneira como a sociedade actual ainda trata esta questão. E também, porque acredito que se falarmos cada vez mais disto, sobre experiências que nos tenham acontecido, acredito que dê força para outras pessoas nas mesmas situações falarem.. Porque o problema não somos nós, o problema são as PESSOAS!
Sendo assim....
Aconteceu tudo há uns meses atrás...
Eu estava a trabalhar na padaria de um supermercado, por isso tinha horários por turnos. E chegava a sair do trabalho às 20h15, o que no Luxemburgo, no inverno, já é noite ferrada. O meu trabalho era noutra cidade, e eu não tenho carta de condução por isso tinha de apanhar o autocarro. À noite, quando apanhava o autocarro, já perto das 21h nem sempre era confortável estar na paragem à espera. Era numa zona bastante calma, e deserta à noite, e chegava a estar meia hora na paragem de autocarro sozinha. No entanto, às vezes aparecia por lá um jovem rapaz, alto e bastante entroncado, da minha idade mais ou menos, ou seja com idade a rondar os 22. Havia noites em que ele simplesmente se sentava na paragem de autocarro a olhar, para mim ou para qualquer outra rapariga que lá estivesse. Outras, tentava meter conversa. Se uma rapariga lhe dava para trás, ele metia conversa com outra rapariga, e sempre assim. Reparei que só se metia com raparigas da nossa idade, se estivessem lá mulheres mais velhas ele não se metia com elas. A situação começou a tornar-se desconfortável, porque ele era bastante insistente. Mesmo que lhe dissesse que não queria falar com ele, ele ignorava completamente. Então tentava sempre sentar-me ao lado de alguém mais velho que estivesse na paragem de autocarro, ou se não estivesse ninguém por ali, tentava ligar a alguém que ficasse ao telemóvel comigo. Ao mesmo tempo, tentava não dar tanta importância à situação, para tentar ficar menos preocupada.
Até que numa noite, ele não se ficou pela conversa... Estava frio, mas não estava a nevar nem a chover. Por isso sentei-me num banco da praceta da paragem de autocarro, estava a ouvir música, tinha os fones nos ouvidos. Quando esse mesmo rapaz, se senta ao meu lado. Afasto-me para um canto do banco, e continuo a ouvir música, mas reparo que ele está a falar. Confesso que não ouvi nada do que ele disse, meti a música ainda mais alta e tentei ignora-lo. Como ele não parava, decidi andar até à paragem de autocarro. Só que ele veio atrás de mim. Continuou a insistir para falar comigo, tentei continuar a ignora-lo.
Até que me fartei e lhe disse: "Não quero nada contigo, deixa-me."
E ele me perguntou: "Tens namorado?"
Eu respondi-lhe logo de seguida: "Sim tenho, e ele está quase a chegar."
Achei que mentir-lhe e dizer-lhe que tinha um namorado quase a chegar, o ia afastar. E por momentos, funcionou. Não olhei mais para trás. Não quis dar lhe importância, nem mostrar que estava a morrer por dentro. Cheguei à paragem do autocarro,e para meu azar o autocarro estava atrasado. Continuei a ouvir música. Até que, sinto alguém a agarrar-me por trás... Aconteceu tudo tão rápido, que só me lembro de me sentir agarrada e apalpada. Comecei a gritar por socorro e disse que ia chamar a polícia. Uma senhora que estava na rua, dá um grito, e ele larga-me e vai-se embora. Sim era ele, não o vi chegar, pensava que ele já se tinha ido embora. Foi tão assustador.
A senhora vem ter comigo, e pergunta-me se estou bem. Mal consegui-a falar, só sei que o autocarro apareceu e o meu impulso foi de fugir para dentro do autocarro. Tinha o coração nas mãos. Senti-me mal e tão frustrada. Comecei a chorar e confesso que pensei: "Porquê eu?"
Felizmente, a viagem de autocarro era de 40 minutos. Tive tempo de me acalmar, falar com os meus melhores amigos, e de reflectir sobre o assunto. Tinha de fazer alguma coisa. Ele não tinha o direito de simplesmente me agarrar na rua, e apalpar-me só porque lhe apetecia. Sabe-se lá o que faria mais se aquela senhoria não estivesse lá na rua, naquele momento. Só de pensar nisso, ainda hoje fico toda arrepiada. Mas eu sabia que tinha de fazer alguma coisa. Ainda por cima, não era a primeira vez que ele se metia comigo e me incomodava. E não queria ir todos os dias para o trabalho com medo. Por isso, decidi agir.
Assim que cheguei à estação da cidade de Luxemburgo, fui à polícia. Demorei até tocar a campainha da esquadra. Porque, não. Não é fácil admitir que nos assediaram. Não é fácil falar sobre isso ainda por cima com desconhecidos. Não é fácil admitir que não nos conseguimos defender. Mas a polícia está lá para isso, para nos ajudar. E eu não podia simplesmente ficar calada, ia contra aquilo em que eu acreditava e defendia. Ele é que esteve mal, não eu! Eu disse-lhe que não queria falar com ele, e ele não me respeitou!! Por isso, fui à esquadra e apresentei queixa. Descrever tudo ao pormenor, sim porque eles querem até os pormenores mais pequenos, não foi fácil. Ainda por cima, ainda estava tudo tão fresco, estava tão nervosa e assustada. Tremia por todos os lados. E confesso que o facto dos polícias em serviço, naquele momento, serem homens não ajudou lá muito na altura. Parece que naquele momento, fiquei com repulso a todos os homens. Um aitude de defesa muito provavelmente....
Mas foram cinco estrelas comigo, e no final ainda me agradeceram por ter confiado neles e por ter feito a denuncia e disseram que se voltasse a ver o tal rapaz para lhes ligar logo.
Nos dias a seguir não foi fácil ir trabalhar, mas não baixei a cabeça nunca.
Voltei a ver o tal rapaz uma vez, mas muito ao longe. Entretanto consegui mudar as minhas rotinas e não ir mais para aquela paragem de autocarro, mas sim para outra. O que ajudou a sentir-me mais segura também.
Não, não foi de todo fácil admitir o que aconteceu! Não foi fácil contar isto a desconhecidos, mesmo que sejam polícias. Não foi fácil. Mas eu tinha de agir! Ficar calada era como compactuar com o que havia acontecido. Tive de me proteger, de fazer alguma coisa para me sentir mais segura. Tinha de fazer aquilo que eu sempre defendi e em que acreditava.
Para os retrógradas que achem que dramatizei,que achem que dei importância à mais, ou que ir fazer queixa à polícia foi demais: pois, dizem isso porque não foi com vocês!
E sinceramente, é contra pessoas como vocês que eu decidi partilhar a minha história e que é importante FALAR e AGIR!
A juntar-se a esta iniciativa, apareceu também o #HowIWillChange, que é uma campanha de solidáriadade em que os homens apoiam as vitimas de assédio sexual e se mostram prontos a denunciar qualquer abuso.
Também existe o #MyJObShouldNotIncludeAbuse e o #chegadeassédio.
Obrigada por mais uma vez espreitarem o meu Blossom,
E não te esqueças, nunca te cales!!
Com muito amor, Xana :*



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