Inconsciente ressaca
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| Março 2015 - Atelier de Arte da minha Escola Secundária - Aula de pintura - Uma das minhas fotografias preferidas relacionadas com os meus estudos no curso de arte. |
Tomei a decisão de não tirar um curso superior ligado às artes, porque achei que não era isso que eu queria para a minha vida. Pela necessidade contínua que eu desde cedo senti, de me sentir útil aos outros, de prestar apoio. Pela necessidade que eu sempre senti de dar de mim aos outros. Não me arrependo. Estou feliz com a minha decisão. E tenho a certeza que segui o caminho certo.
Mas acho que me perdi um bocado. E perco-me todos os dias quando entro no meu quarto e não vejo um desenho meu. Quando entro no meu quarto e sei que não tenho meu canto da pintura. Quando sinto vontade de pintar e arranjo sempre alguma coisa de diferente para fazer.
Sinto-me ridícula, mas não tem sido fácil esta minha relação com a arte.
E não consigo perceber porquê. O meu coração acelera sempre que passo por uma loja de arte, cheia de pincéis e tintas. A óleo, aguarela, acrílica. Cheia de cadernos de desenho, lápis de cera, carvão. Tantas coisas. Cheia de vida. Cheia de coisas que tanto me pertencem. Sou tão eu ali estampada naquela montra. Sou tão eu ali dentro daquela loja, podia ser a minha casa. Não me importava nada.
No entanto, chego a casa e não tenho nada disso. E não consigo perceber porquê. O que é que se passa. Pareço um amigo meu a falar, que tem a carta de condução mas que não pega num carro há mais de um ano. Então não dá o passo em frente para conduzir o carro seja de quem for porque tem medo de já não saber conduzir. Será isso? Como estive tanto tempo sem desenhar, um ano e meio, que agora me custa voltar a pegar num lápis? E como é que eu deixei isto acontecer? Sempre andei de um lado para o outro com o meu bloco de desenho. Era em casa, no autocarro, no comboio, na rua, num banco de jardim, nas aulas que não fossem de arte. O meu caderno de rabiscos. De desenhos. De pinturas. De recordações. De desabafos. O que lhe aconteceu? Como é que deixei de o ter a meu lado, 24h sobre 24h? Como é que não me apercebi disto?
Se olhar para a nossa história, praticamente todos os artistas, grandes ou pequenos, conhecidos ou não, têm uma fase destas. Onde se afastam. Onde cortam relações com a arte. Todos com as suas razões, bastante distintas. Por muito ou pouco tempo. Mas nunca pensei que pudesse causar tamanho mau estar. Tamanha dor. Tamanho vazio. Como se pegar, até num simples lápis para desenhar, fosse a coisa mais desafiante e intimidante de sempre... Mas não é só dessa arte que eu sinto falta, sinto falta de escrever. Mas parece que um sem um outro não funciona. Parece que a minha escrita não está completa se não estiver a desenhar também. Parece que as palavras não se soltam tão bem. As frases não se conjugam da mesma maneira. Como se um dependesse do outro. E talvez dependam mesmo. Porque só assim é que eu sou completa. Eu sei que preciso. Eu sinto. Sinto falta de estar longe daqui. Fora da minha cabeça. Quase que fora do meu corpo. Só o papel, a tela, o meu bloco. Um lápis, uma caneta, um pincel. A tinta. E eu. Só nós. No meu mundo. Dentro da minha bolha. No nosso mundo. Que saudades do atelier de arte lá da escola. De olhar para o lado e ver os meus trabalhos todos dos anos anteriores. De ver a evolução. Era eu. O meu crescimento. Era eu, sou eu, cada linha daqueles desenhos. Em cada cor. Em casa esboço. Em casa quadro. Em cada projecto. Em tudo. Era eu ali estampada, transparente. Eu e o que eu sentia. Eu e a minha maneira de ver o mundo. Que saudades do meu atelier.
É agora a escrever este desabafo que me apercebo... será que isto é tudo porque não lidei bem com o facto de já não ter o meu espaço preferido? Sim, fazia de tudo para ir para o atelier de arte lá da escola. Almoçar. Estudar. Conversar. Passar intervalos. Nos furos entre as aulas. Falar com o professor. Para além de ansiar pelas horas de arte todos os dias. Era o meu espaço. Dos meus colegas claro. Mas era nosso. Meu. O meu canto. O meu refugio. Acho que só hoje, quase dois anos depois de me ter despedido dele, é que me apercebo o quão importante era para mim. Que saudades. Talvez não me tenha apercebido do quão difícil foi não poder mais ir para lá. Será?
Mas eu preciso. Estou a ressacar. Literalmente. Porque o desenho e a pintura sempre foram a minha droga! Preciso. Quero.
Espero que o próximo desabafo sobre isto, seja para contar vos como é estar de volta e como é ter um o meu cantinho das artes.


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